De onde vem esta tua obsessão pelo Brasil?

Depois de vários anos a trabalhar com estruturas competitivas e rígidas e a viver na cultura de trabalho inflexível do velho mundo, o Brasil restaurou o meu sentido de maravilhamento e curiosidade natural. Irei, eternamente, ser grato ao Brasil por essa descoberta. Às vezes sinto que tenho como dívida ao Brasil ajudar a contar as suas histórias fascinantes ao mundo.

E a tua obsessão com a costura?

O meu pai era correspondente internacional, por isso tive a sorte de crescer entre a Ásia, a África e a Europa. O meu pai estava sempre imaculadamente vestido e tinha um imenso guarda-roupa com fatos, camisas, sapatos e objectos de couro que o acompanharam toda a vida e que ainda possuí.

Lembro-me dos tempos na Índia e de como o meu pai contratava alfaiates locais para costurar cópias dos seus fatos e calças italianas e inglesas. Recordo-me de ver esses velhos homens sentados na varanda a coser durante as monções em Nova Deli.

Já mais velho e a trabalhar em Londres, costumava passar os meus almoços em Mayfair, espreitando os antigos alfaiates nas salas de corte em Savile Row ou vagueando pelos alfaiates de camisas em Jermyn Street, colocando perguntas pormenorizadas sobre como as camisas inglesas diferiam das italianas.

O que difere a costura brasileira da europeia?

Uma rica herança imigrante dispersa através de várias tradições de manufactura e costura. Desde a comunidade italiana, cujos alfaiates de camisas e artesãos chegaram a São Paulo desde os 1880 em diante, à diáspora Japonesa que incluía artesãos, assim como tradições britânicas que se espalharam através de alianças comerciais durante todo o século XIX.

No Brasil distanciaram-se das estruturas mais rígidas de trabalhar do velho mundo para fazerem camisas mais relaxadas. O escapulário da camisa é curvado para que estas sejam mais confortáveis; o colarinho é uma apropriação do estilo clássico brasileiro – tem uma curva subtil; o botão é colocado mais abaixo quando se usa sem gravata, fica melhor. É tradicional mas foi adaptado.

De onde vem a inspiração?

Considero-me afortunado o suficiente para ser uma espécie de ‘vira-lata’ – meio sul-africano, meio britânico e criado na Ásia do Sul. Passei a maior parte da minha vida a viver em cidades de países em desenvolvimento e, apesar da sua pobreza, há uma energia e um elemento de esperança nestas comunidades. Muitas das ideias que tenho surgem quando caminho pelas ruas e observo a vida das pessoas.

Que ícones brasileiros gostaria de vestir e porquê?

Adoraria ter vestido o Cândido Rondon, particularmente quando estava construindo as linhas telegráficas em Mato Grosso profundo. Por puro prazer, teria escolhido o playboy brasileiro “Baby” Pignatari, em especial durante o seu auge no clube nocturno Oásis, no edifício Esther na República nos anos 50. Actualmente, seriam aqueles que se destacam nos seus ofícios, como o arquitecto Paulo Mendes da Rocha ou, para um toque de luxúria urbana, adoraria trabalhar com o empresário de hotelaria Rogério Fasano.

Qual o futuro de Reunidas?

A expansão. Adoraria colaborar com outros campeões da herança brasileira em diferentes indústrias e campos, particularmente no que concerne à educação, porque quero envolver-me mais em ajudar as novas gerações de brasileiros a apreciar a sua própria história e o potencial do seu país.

“Depois de vários anos a trabalhar com estruturas competitivas e rígidas e a viver na cultura de trabalho inflexível do velho mundo, o Brasil restaurou o meu sentido de maravilhamento e curiosidade natural. Irei, eternamente, ser grato ao Brasil por essa descoberta.”

Quais são as tuas cinco dicas preferidas em São Paulo?

1) Comer

Compro peixe para sushi na Peixaria Mitsugi, no distrito japonês da Liberdade. Está escondido nas traseiras de um centro comercial dos anos 60 e podes encontrar lá o sashimi mais fresco para comer no local, acompanhado de uma boa cerveja gelada.

2) Beber

Domingos em Paribar na Praça Dom José Gaspar, quando os Selvagem estão jogando e depois tropeçar no Estadão para o melhor sanduíche de pernil da cidade.

3) Comprar

Acordar cedo e ir ao mercado de alimentos em CEAGASP e ver os mais incríveis produtos que provêm de todo o país. Gosto, particularmente, de regatear com as senhoras idosas japonesas, que parecem ter monopolizado o mercado com salsa e ervas.

4) Ver

Passear ao longo da auto-estrada Brutalista, conhecida localmente como Minhocão. Aos fins-de-semana encerra ao tráfego para dar lugar a skateboarders, corredores, churrascos e artistas de rua. É uma forma única de experienciar a cidade e absorver algumas das suas obras primas arquitectónicas, como o edifício utópico curvado COPAN de Oscar Niemeyer.

5) Segredo

Adoro fazer um barbear molhado e ainda existe um punhado de barbeiros especializados, escondidos nos velhos bairros imigrantes de São Paulo. Seu Joaquim tem feito a barba a clientes há mais de meio século perto do cemitério em Pinheiros, na rua Horácio Lane.

Para mais informações: www.reunidas.com

Fotografia: Acervo Reunidas

Where does your obsession with Brazil come from?

After several years working within rigid corporate structures and living in more inflexible old world cultures, Brazil restored my sense of wonder and natural curiosity and I shall forever carry a great deal of gratitude towards Brazil for that. I sometimes feel like I owe it to Brazil to help tell these fascinating stories to the world.

And your obsession with tailoring?

My father was a foreign correspondent so I was lucky to grow up across Asia, Africa and Europe. He was always immaculately dressed and had a huge wardrobe of suits, shirts, shoes and leather goods that lasted his entire life and which he still has to this day. I remember growing up in India and how my father would employ local tailors to craft copies of his Italian and English suits and trousers. I remember watching these old men sitting on the porch stitching away during the monsoon in New Delhi.

When I was older and working in London, I used to spend my lunch breaks in Mayfair sneaking into the old tailor’s cutting rooms on Savile Row or wandering into the shirt makers of Jermyn Street and asking them detailed questions about how British shirts differed to Italian shirts.

What differs with Brazilian tailoring from European?

A rich immigrant heritage dispersed across traditions such as craft and tailoring in Brazil. From the Italian community, whose shirt makers and craftsmen poured into São Paulo from the 1880s onwards, to the Japanese diaspora including artisans as well as British traditions that spread through commercial ties during the 19th Century.

They moved away from the more rigid old world structure to make a more relaxed shirt. The yoke at the back is curved to make the shirts more comfortable; the collar is an appropriation of the classic Brazilian style – it has a subtle curve to it; the button is lowered so when you wear it without a tie, it looks better. It’s traditional but adapted.

Where do you get your inspiration from?

I consider myself fortunate enough to be a sort of ‘vira lata’ – half South African, half British and raised in southern Asia. I spent the majority of my life living in developing world cities where, despite the poverty, there is an energy and an element of hope within communities. A lot of ideas come to me when I walk the streets and observe human life.

Which Brazilian icons do you wish you could dress and why?

I would have loved to dress Cândido Rondon, particularly while he was building his telegraph lines deep in Mato Grosso. For pure fun it would have been Brazilian playboy ‘Baby’ Pignatari, particularly during the 1950s heyday of the Oasis nightclub in Edificio Esther on Republica. Today it would be those excelling at their craft such as architect Paulo Mendes da Rocha or for a touch of Brazilian urban luxury I would love to work with hotel empresario Rogerio Fasano.

What next for Reunidas?

Expansion. I would love to collaborate with other champions of Brazilian heritage in different industries and fields, particularly within education as I want to get more involved with helping younger generations of Brazilians appreciate their own history and the potential of the country.

“After several years working within rigid corporate structures and living in more inflexible old world cultures, Brazil restored my sense of wonder and natural curiosity and I shall forever carry a great deal of gratitude towards Brazil for that.”

Give us your top five São Paulo tips:

1) Eat

I buy sushi grade fish from Peixaria Mitsugi in the Japanese district of Liberdade. It is hidden in the back of a 1960s shopping gallery and you can get fresh sashimi to eat on the spot with an ice cold beer.

2) Drink

Sundays at Paribar in Praça Dom José Gaspar when Selvagem are playing then stumbling past Estadão for the best sanduiche de pernil in town.

3) Shop

Wake up early and head to the wholesale food market at CEAGASP and see the amazing products that flood in from around the country. I particularly love bartering with the old Japanese ladies who seem to have monopolised the market for parsley and herbs.

4) See

Go for a stroll along the Brutalist motorway known locally as Minhocão. At the weekend it closes to traffic for skateboarders, joggers, churrascos and street artists. It is a unique way to see the city from the ground and allows you to take in some architectural masterpieces like Oscar Niemeyer’s curving utopian COPAN building.

5) Secret

I love wet shaves and there are still a handful of skilled old barbers hidden in the old immigrant neighbourhoods of São Paulo. Seu Joaquim has been shaving customers for half a century next to the cemetery in Pinheiros on Rua Horácio Lane.

For more information: www.reunidas.com

Photofraphy: Reunidas Archive