Em 1º de Janeiro de 1502 o navegador português Gaspar de Lemos adentrou a Baía de Guanabara. Tão peculiar conformação, generosa, abundante em natureza e beleza assim como também magnificamente protegida. São pouco mais de mil metros de extensão que separam hoje a Fortaleza de Santa Cruz da Barra, em Niterói, do Forte da Lage, no Rio. Esse era, e continua a ser, o único pórtico mítico e traiçoeiro pelos seus poucos pontos de maior calado, encimado pelo colossal maciço granítico-gnaissico do Pão de Açúcar, com 395 metros de altura. Por esse portão acessa-se o universo da diversidade ambiental da Baía, de mais de 412 quilômetros quadrados, quase um terço da área do atual município do Rio.

Ao entrar nesse novo universo tropical o navegador português poeticamente batizou-o de “Rio de Janeiro”, referência simultânea ao tempo e ao espaço maravilhosos onde estava: um ano novo em um novo lugar.

Entretanto a cidade só viria a ser fundada em 1565. Durante 63 anos o Rio foi apenas um nome escrito em um mapa e uma idéia. Foi um lugar antes de ser cidade. Foi sonho e idéia nas mentes portuguesas e européias antes de vir a converter-se em algo concreto.

As navegações portuguesas não foram apenas meio de ampliação do império ultramarino português mas também mensagem do espirito lusitano que embevecido em profundo catolicismo levou aos continentes e territórios que tocou uma abordagem generosa e amorosa para com a natureza.

Se a docilidade na implantação de estruturas humanas sobre topografias complexas, ao longo de rios, tranquilamente enfrentando declividades de morros e vales, poderia sugerir um método de urbanística inferior ao empenho espanhol, ou francês ou holandês, em sobrepujar terrenos difíceis, em atos vigorosos de canalizar, em re-organizar o território físico existente em outra composição, mais afeita ao racional, o urbanismo colonial português seria ousadamente precursor de modos de sustentabilidade que hoje tanto prezamos. Ao utilizar recursos materiais disponível ao máximo, ao ter a gravidade ao seu favor e não contrária, ao criar pela irregularidade um tecido espacial orgânico, surpreendente e espiritual, as cidades de origem portuguesa surpreendem pela agradável oferta de paisagens culturais.

 

 

 

Fortificações, igrejas, casas de comércio, sobrados, largos e paços compunham sistemas plenos de método e graça que em contato com as culturas nativas locais e africanas viriam a constituir-se como um patrimônio cultural raro. As cidades da língua portuguesa são registros históricos importantes da humanidade por oferecerem uma matriz cultural que pode hoje ser acessada e compartilhada nos continentes americano, africano e asiático. São um patrimônio compartilhado.

Elaboradas como obra aberta, reguladas pelo misticismo, as cidades lusófonas oferecem, de igreja em igreja, de lugar de santo em lugar de santo, uma possibilidade de perceber as cidades para além do binômio econômico-social, resgatando sentimentos e valores que estavam presentes na origem da experiência da humanidade ao estabelecer-se no território, de que as cidades são também o lugar da percepção coletiva do sagrado.

As primeiras cidades surgiram há mais de 10.000 anos atrás na Mesopotâmia, e se foram locais da verificação de um superavit agrícola, pela reunião pessoas, saberes e técnicas, foram também locais onde estabeleceu-se um senso de divino. Corresponde ao sucesso material um acordo comum de aquele lugar haveria de ser “bom”, e essa bonança tanto dar-se-ia pela subsistência, como também pelo enfrentamento dos mistérios da natureza. Não á toa os lugares de rituais, assim como a classe de sacerdotes, ocupavam os centros geográficos das aglomerações urbanas e estavam no topo destas sociedades pré-históricas.

Não há como dissociar a presença espiritual nas cidades de origem portuguesas. Mas tal dimensão extrapola a composição plástico-paisagística ao compor cenários urbanos com igrejas e conventos. Está também materializada na forma urbana. A irregularidade de traçados, as ladeiras, os “altos”, as ruas chamadas “direita”, geraram, nas colônias da coroa portuguesa, e em especial, no Brasil, um sentido acolhedor de território cultural comum, de constituição de um corpo social único.

Em tempos “líquidos”, pós-moderno, pós-industriais, onde a imaterialidade da era digital com sua overdose contínua de informação, criando um torpor anestésico, que talvez venha nos propor conforto letárgico para lidar com um planeta em colapso ambiental, é importante reafirmar a necessidade de que nossas cidades assumam sua intrínseca e ancestral função de serem territórios humanos. Isso significa portanto fazer com que as cidades acomodem-se à natureza, que possam desfrutar do prazer visual e biológico do contato com meio natural, em fazer com que nossas cidades possam também converterem-se em lugares do espírito e da cultura, anulando a extrema velocidade da nossa era, contrapondo-a com belezas tanto construídas assim como intangíveis.

A latência da cultura portuguesa em cidades como São Luís, Salvador, Rio de Janeiro, é também a resistência do melting pot desses ambientes urbanos, onde cultura indígena e africana puderam constituir um sentido mais caloroso e sustentável à idéia de Novo Mundo e de América. A utopia tão necessária ao nosso tempo é a reconexão com tempos mais lentos, com a cultura material presente nos léxicos de identidades distintas, em movimento, mas que podem verdadeiramente se encontrar e coexistir em harmonia, mesmo que seus fluxos imigratórios tenham sido brutos. A utopia urgente é encontrar propósito espiritual nas economias fazendo com que riquezas possam alcançar oitavas mais altas nos seus objetivos, promovendo para homens e mulheres vidas mais plenas de sentido. A utopia fundamental é reconectarmos nossas cidades com o planeta criando um bioma sereno e respeitoso.

Lições que o modo português de fazer cidades e sociedades ainda reverbera pelos oceanos da Terra ao implantar poesia nas cidades.

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Fotografia: André Vieira + Ilustração: Raul Gastão

On January 1st, 1502, Portuguese navigator Gaspar de Lemos entered Guanabara Bay. So peculiarly conformable, generous, abundant in nature and beauty, as well as magnificently protected. A little more than a thousand meters separate today the Fortress of Santa Cruz da Barra, in Niterói, from the Fort of Lage, in Rio. This was, and still is, the only mythical and treacherous portico because of its few points of greater draft, surmounted by the colossal granitic-gneiss massif of the Sugar Loaf, 395 meters high. Through this gate you access the environmental diversity universe of the Bay, with over 412 thousand square meters, almost a third of the current area of the municipality of Rio.

Upon entering this new tropical universe, the Portuguese navigator poetically named it “Rio de Janeiro”, a simultaneous reference to the wonderful time and space where he was: a new year in a new place. However, the city was only going to be founded in 1565. For 63 years, Rio was just a name written on a map and an idea. It was a place before being a city. It was a dream and an idea in Portuguese and European minds before it became concrete.

The Portuguese navigations were not only a mean of enlarging the Portuguese overseas empire, but also a message from the Lusitanian spirit, deeply rooted in Catholicism, that took to the continents and territories it touched a generous and loving approach to nature.

If docility in the implantation of human structures on complex topographies, along rivers, quietly facing slopes of hills and valleys, could suggest an urban method inferior to the Spanish, French or Dutch commitments, of surpassing difficult terrain in vigorous acts of channeling, re-organizing the existing physical territory into another composition, a more rational one, then Portuguese colonial urbanism would have been the bold forerunner of sustainability moves that we cherish so much today.

By using the material resources available to the maximum, by having gravity in their favor and not in the contrary, by creating through irregularity an organic, surprising and spiritual space fabric, cities of Portuguese origin surprise for the pleasing offer of cultural landscapes.

 

 

Fortifications, churches, houses of commerce, twin houses, squares and palaces composed systems full of method and grace, that in contact with native, local and African cultures were going to be constituted as rare cultural patrimony. Portuguese-speaking cities are important historical records of mankind, for offering a cultural matrix that can today be accessed and shared on the American, African and Asian continents. They are a shared patrimony.

Elaborated as an open work, regulated by mysticism, Portuguese-speaking cities offer, from church to church, from saint place to saint place, the possibility of perceiving cities beyond the economic-social binomial, thus rescuing feelings and values that were present in the origin of the human experience when establishing in the territory, that the cities are also the place of collective perception of the sacred.

The first cities arose more than 10,000 years ago in Mesopotamia, and if they were sites for verification of an agricultural surplus, due to the meeting of people, knowledge and techniques, they were also places where the sense of divine was established. Corresponds to material success the common agreement that one place should be “good,” and that bonanza would be given in regards to subsistence as well as to confrontation of nature’s mysteries. It was no coincidence that the places of ritual, like the class of priests, occupied geographical centers in urban agglomerations and were at the top of those prehistoric societies.

There is no way to dissociate the spiritual presence in Portuguese-origin cities. But such dimension extrapolates the plastic-landscape composition by making urban settings with churches and convents. It is also materialized in urban form. The irregularity of the routes, the slopes, the “high parts”, the streets called “right” have generated, in the colonies of the Portuguese crown and especially in Brazil, a welcoming sense of common cultural territory, of constitution of a single social body .

In these “liquid”, postmodern, postindustrial times, where the immateriality of the digital age with its continuous overdose of information creates an anesthetic torpor, which may offer us lethargic comfort to deal with a planet in environmental collapse, it is important to reaffirm the need for our cities to assume their intrinsic and ancestral function of being human territories. This means, therefore, to make cities accommodate to nature, have them enjoy the visual and biological pleasure of contact with natural environment, to make our cities also become places of spirit and culture, canceling the extreme speed of our age, countering it with both built and intangible beauties.
The latency of Portuguese culture in cities like São Luís, Salvador and Rio de Janeiro is also the resistance of the “melting pot” of these urban environments, where indigenous and African culture were able to constitute a more sustainable and warm sense to the idea of the New World and America. Utopia, so necessary these days, is the reconnection with slower times, with the material culture present in the lexicons of distinct and changing identities, but which can truly meet and coexist in harmony even though immigration flows have been brutal. The urgent utopia is to find spiritual purpose in the economies by making riches achieve higher octaves in their goals, by promoting more meaningful lives for men and women. The fundamental utopia is to reconnect our cities with the planet, by creating a serene and respectful biome.

Lessons that the Portuguese way of making cities and societies still reverberates through the Earth’s oceans by implanting poetry in cities.

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Photography: André Vieira + Ilustration: Raul Gastão