Eu me sinto em casa quando estou no Brasil. Para mim, é um lugar de liberdade. É onde eu sinto que posso ser verdadeiramente humano. Não tem nada a ver com a grandiosa geografia do país; é porque o Brasil sempre recebe culturas e criatividade de fora com os braços abertos. Em primeira análise poderia soar como uma submissão, porque parece não haver nenhum julgamento crítico. No entanto, é exatamente o oposto. O Brasil processa a informação e devolve ao mundo com sua marca própria e especial. O que o Brasil fez com a língua portuguesa foi recebê-la e devolvê-la ao mundo de uma maneira nova, incorporando expressões muito mais amplas, que refletem a forma e a emoção que pertencem ao povo brasileiro.

 

“Eu acho que a cultura lusófona como um todo ganhou muito com a gama de significado e emoção que a língua portuguesa recebeu depois de ter passado pelo
“filtro Brasil.”

Em suma, o português brasileiro é um reflexo da forma como o Brasil, criativa e generosamente, se apropria de tudo que vem de fora e a ausência de complexidade com a qual retorna algo novo para o mundo.

Assim, o design brasileiro contemporâneo reúne todas as informações do exterior e as combina com a voluptuosidade dos materiais locais, o respeito com que são tratados, uma abordagem descontraída e a ausência total de complexidades no produto final. Pode ser menos cerebral, mas o design brasileiro lida com seriedade com as principais preocupações ambientais que estão em pauta.

 

 

Minha peça de design brasileiro favorito é a cadeira FDC1, de Flávio de Carvalho. Não só pela peça em si, mas também por tudo o que o nome Flávio de Carvalho engloba – um designer à frente de seu tempo, um artista e um “revolucionário romântico”, como Le Corbusier o apelidou. Quanto à nova onda, Jader Almeida passou a representar o novo design brasileiro com uma visão global. Ele mostra uma habilidade técnica muito especial e é dedicado e apaixonado por materiais. Ele é capaz de se impor no mercado global com sua linguagem de design transparente, longe da natureza mais expressiva dos recentes designers brasileiros.

 

Cadeira FDC1, criação de Flávio de Carvalho

 

O designer Brasileiro Jader Almeida

 

O design português ainda está muito aberto à interpretação. Eu ainda não vejo sua identidade. Como um recém-nascido, você tem que abrir os olhos para ele e nutri-lo com cuidado. A minha peça preferida de design português é a Cadeira Barca, de Marco Sousa Santos. Eu o admiro muito. Eu gosto da cadeira Barca pelo prazer de não ter que pensar porquê, mas se eu tivesse, acho que a poltrona reflete uma certa sofisticação em sua simplicidade que pode definir o novo design português quando eventualmente olharmos para trás.

Tendo saído de Portugal aos 18 anos, a cultura e língua portuguesa sempre soaram um pouco estranhas para mim. Eu sempre senti que era minha identidade, mas também o meu limite. Quando descobri os poetas brasileiros, como Augusto de Campos ou Décio Pignatari e depois Caetano Veloso, me senti livre e isso culminou na banda de rock portuguesa Mler Ife Dada que comecei na década de 1980. Nós até viramos uma espécie de referência poética na cena musical da época. Todas as bandas cantavam em inglês, enquanto a gente estava cantando poemas dadaísta em português, cheios de significados que nem sequer percebíamos.

Quanto aos próprios portugueses, há uma restrição que aparece sob a forma de sobriedade que eu acho que é única do povo. Talvez seja um reflexo do confinamento ligado ao pouco espaço que ocupamos. Mas, por outro lado, temos confiança em nós mesmos e talvez seja por isso que podemos deixar a nossa zona de conforto e facilmente nos integrar a outro lugar e outras culturas.

Para mais informações: www.quartosala.com

Fotografia: Arquivo OBA – Ilustração: Raul Gastão

I feel at home when I’m in Brazil. For me it is a place of freedom. It is where I feel that I can be truly human. It has nothing to do with its grand geography, it is because Brazil always receives outside cultures and creativity with open arms. At first, that may appear submissive because there seems to be no critical judgment. However, it is exactly the opposite. Brazil processes the information and returns it to the world with its very own special stamp. What Brazil did with the Portuguese language was to welcome it and return it to the world in a new way, incorporating much broader expressions that reflect the form and emotion that belong to the Brazilian people themselves.

I think that Lusophone culture as a whole has gained much from the range of meaning and emotion that the Portuguese language received after being passed through the “Brazil filter”. In short, Brazilian Portuguese is a reflection of the way Brazil creatively and generously appropriates everything that comes from outside and is the absence of complexity with which it returns something new to the world.

As such, contemporary Brazilian design gathers all the information from outside and combines it with the voluptuousness of local materials, the respect with which they are treated, a laid back approach and the total absence of complexities in the final product. It may be less cerebral, but Brazilian design deals quite seriously with the major environmental concerns that are up in the air.

 

 

My favourite piece of Brazilian design is Flávio de Carvalho’s FDC1 chair. Not only for the piece itself, but also for everything that the name Flávio de Carvalho encompasses – a designer before his time, an artist, and a “romantic revolutionary”, as Le Corbusier dubbed him. As for the new wave, Jader Almeida has come to represent the new Brazilian design with a global vision. He shows a very special technical ability while being devoted and passionate about materials. He is able to impose himself on the global market with his transparent design language, far from the more expressive nature of the recent Brazilian designers.

 

The FDC1 chair, by Flavio de Carvalho

 

Brazilian designer Jader Almeida

 

Portuguese design is still very open to interpretation. I don’t yet see its identity. Like a newborn child, you have to open your eyes to it and nurture it carefully. My favourite piece of Portuguese design is Marco Sousa Santos’s Barca Chair. I admire him a lot. I like the Barca Chair for the pleasure of not having to think why, but if I had to, I think the armchair reflects a certain sophistication in its simplicity that may well define the new Portuguese design when we eventually look back at it.

Having left Portugal at the age of 18, the Portuguese culture and language has always felt a little strange to me. I always felt that it was my identity but also my limit. When I discovered the Brazilian poets such as Augusto de Campos or Décio Pignatari and later Caetano Veloso, I felt liberated and this culminated in the Portuguese rock band Mler Ife Dada that I started in the 1980s. We even became something of a poetic reference on the music scene at the time. Every band used to sing in English, while we were singing Dadaist poems in Portuguese, full of meaning that we didn’t even recognise.

As for the Portuguese people ourselves, there is a restraint that comes across as a form of sobriety that I think is unique to the population. Perhaps it is a reflection of confinement related to the small amount of space we occupy. But on the other hand we have a self-assuredness and maybe that’s why we can leave our comfort zone and easily integrate elsewhere and into other cultures.

For more information: www.quartosala.com

 

Photography: OBA Archive + Ilustration: Raul Gastão